Relatório 6 – Linguagem – Thiago Ortman, diretor e aniversariante do dia

Porto – Pesquisa de Referências / Linguagem

de Thiago Ortman

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Introdução

Em um primeiro momento, uma série de referências  surgiram. Mas meu interesse maior é entender a cidade, por isso, comecei a analisar filmes que buscavam o mesmo norte. Na apresentação de pitching já havia decidido por algumas referências; boa parte delas se mantém – enquanto uma ou outra caiu. Somadas a essas, surgiram outras que muitas vezes relatam algum aspecto ligado a uma cena/plano – que pretendo filmar – ou a alguma sensação que pretendo transmitir; há também muitas referências surgindo no processo de filmagem.

 

Primeiras referências

“Céu sobre os Ombros”, “A Oeste dos Trilhos”, “Anotações em Novembro”; “Reconstrução da Ruína”… além do texto “Experiência e Pobreza” de Walter Benjamin. Essas estavam desde o primeiro momento entre minhas referências. Filmes bem diversificados em sua realização, porém, com intuito semelhante: analisar a cidade.

“Céu Sobre os Ombros” pode ser considerado, em termos formais, o filme mais inspirador. Filmar três pessoas distintas em seu cotidiano, buscar nos planos e na narrativa suas peculiaridades e consequentemente suas histórias. O Porto também acompanha os personagens, porém, a busca foca ainda mais o indivíduo em relação com aquele espaço (a Zona Portuária). E a proposição da ficção imposta no filme de Sergio Borges é mais sutil em Porto, afinal, o interesse está em revelar o indivíduo em sua natureza mais sincera, focando nas principais características de seu perfil (ler mais em “Filmando Seu Nelson”)

“A Oeste dos Trilhos” prepara do terreno para muito das minhas reflexões antes e durante o processo de filmagem. Além da sua maneira exuberante filmar do diretor (uma handcam ‘flutuando’ pelos espaços mortos e observando o que se passa ali. O filme revela uma cidade degradada, aonde as pessoas trabalham já sem condições alguma: um dia uma zona industrial, hoje uma cidade levada ao abandono total. Não acredito que a Zona Portuária está caminhando para um processo de degradação, mas assim como Wang Bing em seu filme sobre a China, acredito que a região perderá por completo sua identidade. Gostaria de ser capaz de usar a câmera como ele, entrando em todos os lugares e acompanhando a conversa das pessoas e seus sentimentos – mas esse processo demandaria um tempo muito maior do que o necessário para a conclusão do filme.

Quanto aos filmes de Projeto 1 que me influenciam, partem da amizade que tenho com os diretores, e graças a isso um diálogo direto sobre eles. Admiro os dois filmes, acho a busca em entender a cidade louvável. Por isso, apesar de não haver um diálogo através do formato proposto pelos filmes – ambos com uma linguagem mais poética. Os mesmos questionamentos sobre a cidade estão lá, compreendê-la.

 

 

Filmando Seu Nelson

A maior parte das filmagens com o Seu Nelson – um de nossos personagens – já foi concebido. Seu Nelson é um senhor que mora no Morro do Pinto, tem cerca de 70 anos e inúmeras histórias singulares. Sambista que compõe até hoje é a imagem daquilo que o Rio já foi e não conseguiu preservar.

Em meio a suas filmagens, uma série de referências ligadas ao cinema nacional e sua história surgiram. Em um primeiro momento Seu Nelson resolveu fazer um “panelão” de sopa de ervilha para todos. Aí surgiu a primeira, digamos, homenagem: enquanto Seu Nelson catava as ervilhas ruins em cima de sua mesa de plástico, nós o filmamos silenciosamente, lembrando em alguma instância a cena final de “Eles não usam Black-tie” de Leon Hirszman. E não foi o único plano do cineasta que buscamos. Ensaiamos algo que se assemelha ao plano na casa de Nelson Cavaquinho (quando a câmera passeia em busca de detalhes na mobília de sua casa).

Ainda na linha dos diretores do Cinema Novo, Seu Nelson enfrentou os mesmos problemas que muitos sambistas que nunca foram conhecidos no asfalto também enfrentaram, e manteve sua posição firme, sem perecer aos interesses da industria fonográfica. O paralelo entre Seu Nelson e Espírito, personagem de Grande Otelo no filme Rio Zona Norte é plenamente cabível. A inocência de um Rio que não volta.

A termo de curiosidade, filmamos em um bar no alto do Morro do Pinto onde foi rodada uma cena de Assalto ao Trem pagado.

 

Sobre as sensações

Ao longo da minha pesquisa, fui entendendo com mais consciencia como o Rio se modifica nas suas instâncias arquitetonicas e –como consequencia – sociais. As mudanças governamentais realizam plano que descaracterizam regiões históricas (desde o início do século XX), em prol de uma política aristocrática que na realidade jamais conveio com a realidade da cidade e seus reais interesses. Por isso, a chamada revitalização da Zona Portuária, nada mais é que mais uma das alterações no paisagem histórica do Rio, levando evidentemente a mudanças drásticas, e muitas vezes agressivas da população residente ali. Acompanhando o raciocínio, a Zona Portuária será descaracterizada assim como a Praça XI foi um dia: o berço do samba, local que reunia negros e judeus… hoje é o simbolismo maior do vazio no Rio de Janeiro.

Dito tudo isso, a canção “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo despontou como um referência-maior para o “Porto”. A música canta a morte do samba (como foi um dia), o fim de um monumento histórico. “Praça Onze” é um acontecimento, afinal, é gerada durante as modificações; é um grito de protesto que se esvai, mas a energia de seus versos continuam vivo no Rio de hoje, por isso, a associação é mais do que bem vinda e carbura minhas ideias para o filme. O paralelo entre Porto e Praça XI é evidente: a modificação, irá descaracterizar aquele espaço, alterando o fluxo da cidade e acabando com o modo de vida das famílias que moram há décadas naquele lugar.

 

Vazio

Lidar com o vazio é, sem dúvida, uma missão das mais complexas. Há três momentos do cinema que associo quando penso em filmar o vazio no “Porto”.

O primeiro deles é um trecho do filme “Juventude em Marcha” do diretor português Pedro Costa: ao filmar a personagem de Ventura (protagonista) entrando a primeira vez em seu novo apartamento… trata-se de um conjunto habitacional branco e sem personalidade, a realização do nada. Enquanto o corretor de imóveis fala, Ventura simplesmente se cala, sem condições de realizar absolutamente nada naquele espaço… limbo.

O diretor tailândes Apichatpong Weerasethakul costuma ser uma referência para todos filmes que dirijo. Mais uma vez, em “A Síndrome e um Século”, mais especificamente na cena em que duas estátuas são filmadas em travellings laterais, que as têm como ponto de referência, em meio a uma música drone (caracterizada pela repetição e sustentação do som, como algo ambient).

A cena das escavações de Pompeia no filme “Viagem a Itália” de Rossellini retratam o vazio no seu teor mais doloroso. O vazio das relações humanas, e tal sentimento pode ser transportada para um vazio dos espaços e um vazio sociológico, deturpador, que simplesmente extermina com a histórica e os indivíduos que lá estão enraizados.

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