Relatório 3 – Campo – Ana Bolshaw

PORTO – Pesquisa de Campo

De Ana Carolina Bolshaw

INTRODUÇÃO –

Nosso primeiro contato com a Zona Portuária foi anterior a aprovação do projeto no pitching. Naquela altura, o grupo inicial, eu, Thiago e Manuela, já havíamos feito duas visitas visando uma pesquisa para o projeto do curta documentário; a primeira na área da Praça XV, Morro da Conceição, alto do Mosteiro de São Bento e entornos da perimetral e na segunda focamos em andar pela Gamboa, Saúde e Santo Cristo.  Nesses primeiros momentos fomos nos familiarizando com a movimentação e com as obras sendo realizadas; nossas idas foram realizadas com um espaçamento de um mês aproximadamente e  foi surpreendente perceber a rapidez do andamento das obras. Na Avenida Venezuela, por exemplo,  o canteiro de obras ‘’andou’’ quase três quarteirões nesse curto intervalo de tempo, se torna visível a urgência da realização do curta-metragem. Mais do que a vontade de filmar as obras, pretendíamos registrar o processo de mudança, congelar e retratar esse espaço de tempo entre o que é e do que irá se tornar, com as imagens e com as pessoas, fazer do projeto um objeto de memória e reflexão daquele espaço e campo de estudo.

Nesse relato a ser avaliado academicamente, irei dar ênfase ao relacionamento estabelecido com o Thiago Rodrigues, fotógrafo. Criamos essa divisão no grupo, cada integrante seria responsável pela busca de um personagem e tudo o que envolva este e nosso relato seria baseado nisso. Dessa forma, mesmo estando presente em outros momentos de filmagem e me relacionando com outras pessoas que estarão no filme, irei desconsiderar esses relatos e fazer um registro formal que será baseado somente nas experiências com o Thiago.

CAMINHO PERCORRIDO ATÉ O THIAGO –

Antes mesmo do pitching, no dia 3 de Março, em nossa segunda visita ao Porto,  descobrimos o Galpão da Ação e Cidadania na Gamboa. Estávamos passando e percebemos um evento acontecendo no seu interior, era uma reunião, que viemos a descobrir, acontece mensalmente. Naquele dia especialmente, o tema era relacionado ao Dia da Mulher, debatiam violência domiciliar, direitos iguais, entre outros. Lá dentro conhecemos a Dona Sônia, uma das líderes da Ocupação de Chiquinha Gonzaga, que conversou conosco sobre a questão das remoções na área, pegamos seu contato e seguimos nosso caminho. Estávamos já satisfeitos e conversando sobre o que havíamos descoberto e conversado com a Dona Sônia quando paramos em uma birosca de esquina para comer um pastel. A via dessa esquina estava completamente aberta com um canteiro de obras e gradios laranjas,  enquanto meus companheiros pediam o lance no caixa fiquei na esquina tirando fotos da rua, dos operários e transeuntes. Nesse momento, fui abordada por um homem, que perguntou se eu trabalhava no Galpão do Ação e Cidadania, expliquei que éramos alunos da PUC e qual seria a funcionalidade daquelas imagens. O homem se apresentou como Maurício Hora, professor de fotografia do Galpão. Expliquei o projeto, ele se mostrou interessado e contou que estava montando com seus alunos uma exposição justamente sobre a Zona Portuária e as mudanças, falou que a inauguração havia sido adiada por falta de organização e problemas com o patrocínio, mas que eles esperavam que no mês seguinte já estivessem expondo. Maurício frisou a necessidade daquele registro por aqueles jovens que frequentam e passam por aquelas ruas todos os dias, o diálogo com ele me instigou e, desde aquele momento, vimos uma identificação daquele registro com o que pretendíamos explanar no nosso documentário.

Um mês depois, após ter o projeto aprovado pelo banca do pitching e novos membros em nossa equipe, voltei ao Galpão para falar com o Maurício, pois pensava que ele seria um bom personagem para o nosso filme ou abriria caminhos para conhecermos um outro possível personagem. Quando entrei no Galpão me deparei com a exposição dos alunos montada e fui completamente surpreendida pelo trabalho deles. Havia sido montados painéis de aproximadamente 5 metros nos dois lados do extenso corredor interno do Galpão e as fotos foram coladas com “lambe-lambe”. O porteiro me informou que o Maurício havia sido para almoçar, esperei um pouco, até que chegou um dos alunos, Douglas, ele foi comigo até o estúdio, a pequena sala onde o Maurício ficava com seus alunos e ficamos esperando lá. O estúdio tinha um equipamento de fotografia razoável, com câmeras, refletores e computadores. Perguntei se tinha fotos dele na exposição e ele contou que não tinha sido aluno do curso no ano anterior porque havia servido no exército, mas que tinha aprendido muito no tempo que frequentou as aulas e queria recomeçar o curso. Descobri que a exposição havia sido inaugurado na noite anterior e que os alunos e o Maurício haviam montado tudo sozinhos, de maneira que tinham trabalhado exaustivamente na última semana, passando noites sem dormir. Ele perguntou se eu havia visto as fotos de 15 metros do lado de fora do Galpão, achei que ele estava falando do “cartaz” da exposição também em lambe-lambe, mas somente depois fui descobrir um corredor inteiro de fotografias no exterior do prédio.

Chegaram mais dois alunos na sala de fotografia do Galpão, entre eles, o Thiago, que avisou que o Maurício não voltaria ao Galpão naquele dia porque precisava dormir após a inauguração da exposição. Conversei um pouco sobre o projeto com os rapazes sobre a exposição, sobre fotografia e também sobre o que se tratava o nosso projeto. Percebi que eles estavam tímidos mas ainda assim foram muito simpáticos, desde esse primeiro dia, a articulação e sua capacidade de reflexão do Thiago me chamou atenção.

Voltei um dia depois com alguns companheiros do grupo, Mauricio novamente não estava, Os alunos conversaram conosco e deram sugestões de lugares para conhecermos na zona portuária. Nesse dia, peguei o contato do Mauricio por telefone e combinei de encontra-lo no galpão na semana seguinte. Conversamos com a Ruth, coordenadora cultural do Galpão e ela nos deu total apoio para estar realizando o projeto em seu espaço e que o Maurício seria justamente o melhor contato que poderíamos querer. Enquanto estávamos lá, o Thiago Rodrigues estava fotografando a exposição.

– THIAGO, VOCÊ FOI PROMOVIDO

Quando finalmente nos reencontramos com o Mauricio, ele estava nos fundos do Galpão com o Thiago e Douglas repintando a moldura de uns dos painéis da exposição. Conversamos com ele, que nos contou a sua visão sobre a Zona Portuária. Morador do Santo Cristo, Maurício tem muito orgulho de seus alunos e realmente acredita no potencial deles como profissionais do mercado, não quer iniciar outro curso de fotografia e, sim, continuar instrumentalizando seus alunos. Ele fez a primeira relação comparando o abandono da Zona Portuária com a Praça XI, que pesquisaríamos mais a fundo em outro momento. Questionamos sobre a realização do nosso documentário e ele aprovou ao dizer que acha que qualquer retrato e registro ali é bem-vindo. Disse que o Thiago seria um “bom personagem” pois estava fotografando bem, a maior foto do exterior do Galpão era dele, e era bem esperto, com consciência social e que, com certeza, iria enriquecer nosso projeto. Thiago que estava conosco, riu da colocação do professor a seu respeito, mas se colocou completamente disponível para nos ajudar. Disse que não se sentia a vontade na frente das câmeras e achamos que isso seria interessante. Mas, posteriormente, a desenvoltura do Thiago nos surpreendeu, foi notável a intimidade que ele foi desenvolvendo com a ‘frente’ das lentes através do estabelecimento de relações conosco, seu conhecimento prévio da linguagem audiovisual e conversas sobre a parte técnica da realização do filme.

Marcamos no feriado de São Jorge para começar nossas filmagens, a ideia inicial era buscar planos da zona portuária, desde os mais abertos possíveis, vista da cidade, até detalhes da marcação nas portas das casas para remoção. O Thiago já estava mais envolvido em nosso processo e se dispôs a nos acompanhar e nos apresentar outros lugares e olhares na região. Fomos com ele ao Morro da Providência, que estava em festa no feriado. Lá há uma UPP, mas mesmo assim, sentimos que não seria possível subir sem a presença do Thiago e/ou em um dia normal. Fomos ao alto da Casa Amarela, centro cultural do Morro, que o Mauricio Hora administra e fizemos imagens das pessoas e da cidade.

Nos despedimos do Thiago pois ele tinha que trabalhar fotografando uma festa e seguimos para a Pedra do Sal. Lá, também havia uma festa pelo dia de São Jorge e muitos canteiros de obra em atividade ao redor. Fizemos algumas imagens da festa e dos detalhes característicos daquele espaço como imagens de apoio sobre o dia-a-dia e para possibilitar uma maior ambientalização no filme. Observamos esse momentos de lazer, onde todos as famílias se conhecem e socializam são características intimistas, que diferenciam aquele espaço do resto da cidade.

A próxima parada foi a praça de Gamboa, onde tentamos ainda capturar imagens com essas características, crianças jogando futebol na rua, botequins, cama elástica, famílias nos bancos da praça, etc.

Foi satisfatório esse primeiro momento, pois conseguimos imagens diversas da área, tanto do alto quanto inseridos naquele ambiente intimista e das obras que estão espalhadas no meio de tudo isso.

THIAGO, AGENTE

A partir de conversas com o Thiago, pensamos que seria interessante se ele pudesse desenvolver um papel mais ativo. Não queríamos que ele atuasse como um ator, mas sim que ele pudesse ser um personagem que questionasse o espaço portuário e levasse essa questão a outras pessoas que cruzassem sem caminho. Não deixa de ser a sua proposta quando registra e expõe suas fotografias e a nossa ao realizar o filme: levar essa questão adiante com o intuito de causar uma reflexão. Decidimos experimentar filmar com ele nos arredores do Galpão com uma lapela, assim poderíamos registrar as suas conversas, ainda não havia sido definido como essas imagens seriam feitas, uma vez que aproximar a câmera para filmar esse diálogo poderia causar uma retração da outra pessoa e não sabíamos se filmar o diálogo de longe seria satisfatório.

No dia seguinte ao feriado de São Jorge, encontramos com o Thiago no Galpão e filmamos a primeira diária de uma série que, até o presente momento, dia 11 de Maio, já acumula 4 dias de acompanhamento com ele pela área.

Nessas 4 diárias conseguimos bastante material dele fotografando e conversando com diversas pessoas, observamos uma desocupação em Gamboa e muitos canteiros de obras no Morro da Conceição e nos arredores do Galpão. Ele conversou com desde seus amigos do curso, idosos que perguntavam da filmagem até aqueles que participavam com a desocupação.

Em nosso plano de filmagem, pretendemos estar com ele ainda amanhã (12 de Maio), na terça, quinta e na sexta-feira (15, 17 e 18 de Maio) para concluir as filmagens e daí partir para o registro da Ocupação das Guerreiras durante um final de semana. Temos uma margem no ínicio de Junho para que, após a primeira decupagem, possam ser feitos planos que estejam faltando para a narrativa do curta.

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