Relatório 1 – Pesquisa de conteúdo por Nicholas

A partir de agora, vamos adicionar aqui os relatórios desenvolvidos pelos membros da equipe. Eles pesquisaram os seguintes direcionamentos: conteúdo; campo; e linguagem.

Abaixo segue o primeiro relatório da pesquisa de conteúdo do Nicholas Andueza:

Introdução:

Uma proposta como a do projeto Porto Maravilha, que pretende fazer uma reforma radical na Zona Portuária do Rio de Janeiro, deve ser analisada com muito cuidado, tendo em vista a magnitude da iniciativa e de seus possíveis impactos. Não é a primeira vez que a prefeitura do Rio propõe uma reforma em larga escala, de modo que uma abordagem histórica do tema é absolutamente essencial para a formulação de pensamento crítico – necessário para capacitar melhor o grupo frente ao desafio do curta documentário sobre a Zona Portuária.

Embora a primeira vez em que o Rio de Janeiro se vê tomado por obras seja com a chegada da Família Real, em 1806, trata-se de um momento mais de construção do que de reforma urbana propriamente dita. Um período que pouco tem a ver com o atual por fatores econômicos, históricos, sociais e políticos. A análise proposta neste documento visa as reformas de Pereira Passos, suas influências e uma consideração teórica sobre o conceito de espetacularização do patrimônio cultural.

A essência francesa:

É preciso ter em mente que na época da tão notória Reforma Pereira Passos, o modelo que a elite brasileira tinha de civilização era a europeia. Em especial a francesa. Assim, para entender as inspirações conceituais, organizacionais e arquitetônicas das reformas urbanas no Rio de Janeiro, é preciso, antes, fazer uma viagem à Paris de 1860. Nessa época a “cidade das luzes” sofria a mais radical reforma urbana de sua história, promovida pelo Barão de Haussman entre 1852 e 1870. No capítulo A Vista de Notre Dame, do livro A Pintura da Vida Moderna – Paris na arte de Manet e seus seguidores, T. J. Clark descorre detalhadamente sobre todo esse período, chamado de haussmanização.
As motivações principais do barão eram: a) impedir rebeliões populares, faz-se necessário lembrar que a França trazia histórico recente de revoluções importantes (1789, 1830, 1848); b) modernizar a cidade, que tinha uma arquitetura tradicional e antiga; c) criar uma cidade imperial a ser exibida aos estrangeiros; d) gerar lucro, não só para capitalistas industriais e do comércio, como também para o próprio Haussman.

A palavra emblemática que percorre toda o esforço do barão é “progresso”. O conceito implicava desenvolvimento industrial, organização uniformizadora do crescimento do fluxo de mercadorias e pessoas, substituição do comércio local dos quartiers (bairros) pelo dos grands magasisn de nouveauté (grandes lojas de novidade) e valorização do centro da cidade para que fosse ocupado pelas elites. De fato, no fim da década de 1860, como descreve Clark, “Paris tinha o dobro de árvores do que na década anterior, em sua maioria transplantadas já adultas; tinha também policiais e patrulhas noturnas, pontos de ônibus com cobertura, água encanada e melhor acesso aos cemitérios.”

Tais melhorias na infra-estrutura não impediram a impopularidade da reforma. Entre as críticas, estavam: a) o modo dispendioso e desonesto em que Haussman atuava; b) o resultado arquitetônico das obras, com suas avenidas retilíneas e prédios uniformizados, era considerado regular, vazio e tedioso; c) a expulsão da classe trabalhadora do centro para o subúrbio; d) a divisão da cidade em duas: uma de luxo circundada por outra de miséria. Mesmo com as críticas e algumas greves que chegaram a paralisar as obras durante algum tempo, Haussman pôs em prática seu conceito de cidade moderna.

O porto e Pereira Passos

Embora o período de 1903 a 1906 seja apresentado com destaque às reformas controversas feitas pelo então prefeito carioca Pereira Passos, na verdade estas eram complementares ao foco real do Governo Federal: o porto. O presidente Rodrigues Alves, com a finalidade de favorecer as exportações de café e, por conseguinte, a elite cafeeira, pretendia aumentar a capacidade do porto do Rio de Janeiro. As reformas da cidade em si e sua infra-estrutura viriam da necessidade de aprimorar os fluxos de mercadorias e também de atrair imigrantes estrangeiros que iriam trabalhar nas lavouras de café – a economia passava por uma crise de mão-de-obra por causa da abolição da escravidão. A importância aqui era o produto nacional (o café), não a população.

Rodrigues Alves, tendo indicado Pereira Passos como prefeito para as reformas na cidade, designa Francisco Bicalho para modernizar o porto. Ambos entendiam “modernizar” como sendo copiar o estilo europeu, um esforço “quixotesco”, como coloca André Nunes de Azevedo em seu texto A reforma Pereira Passos: uma tentativa de integração urbana. Quixotesco, “pois tentava-se impor um padrão de civilidade urbana burguesa e europeia a uma cidade de tradição escravista e culturalmente heterogênea – marcada pela presença de uma miríade de migrantes e imigrantes.”

Essa imposição da civilidade, para além da abertura de grandes avenidas, expulsando os pobres de suas casas (como Haussman), consistia numa série de proibições em relação a práticas comuns na cidade: cuspir na rua, vadiagem canina, fazer fogueiras nas ruas, venda ambulante de loterias, soltar balões, trânsito de vacas leiteiras, andar descalço ou sem camisa. Ou seja, o esmagamento da cultura e da identidade locais não vinha apenas com a materialização de uma arquitetura em estilo francês sobre os escombros de casas, botecos e quiosques populares, vinha também na ordem dos costumes que tinham que seguir os padrões da elite.

Mesmo que tivesse um preço salgado, havia quem olhasse com bons olhos o que acontecia. O preço tinha que ser pago, era o preço do progresso. O governo fez, no fim das contas, a reforma do porto e a construção de avenidas e de estabelecimentos para o enriquecimento cultural da população (condição para os pobres viverem no centro), como teatros, teatros líricos, o aquário público, praças e jardins – todos, é claro, da cultura de elite. “O Rio civiliza-se”, como colocou o colunista Figueiredo Pimentel após a inauguração da Avenida Central, e passa a ser modelo para outras cidades no Brasil.

É certo que o resultado não foi bem assim. As reformas seguiram os preceitos da empreitada de Haussman, no entanto, ou talvez por isso mesmo, tinham embutidas em si uma artificialidade: aquilo não pertencia ao povo carioca ou brasileiro, mas aos europeus. A população não se identificou com aquele layout novo, ao contrário da elite. Agora havia um estado endividado e a falta de interesse nas praças recém inauguradas – como constata tristemente Pereira Passos em diário depois de seu mandato.

A praça onze, a “espetacularização” e o Porto Maravilha

Tatiana Caniçali Casado, em sua tese Cidade-Paisagem – novas perspectivas sobre a preservação da paisagem urbana no Brasil, escreve que a noção de espetacularização da urbe no Brasil ultrapassa o plano social e alcança o político, exemplo disso é o projeto Porto Maravilha (basta observar o nome do projeto). Numa interpretação puramente estética da paisagem urbana moderna, perdem-se detalhes e particularidades culturais que também formam a riqueza dessa mesma paisagem. Trata-se de um olhar baseado em estereótipos que deixa esvaziado o cenário urbano.

Como escreve o filósofo Jean-Marc Besse, citado por Tatiana: “não se trata (…) de negar o visível, mas de lhe atribuir (…) um outro estatuto, uma outra função: o visível revela algo. (…) O que quer dizer que ele não é unicamente uma representação.” Através do curta sobre a Zona Portuário do Rio de Janeiro, haverá a tentativa de revelar esse algo do visível, que escapa a mera consideração estética e formal da paisagem.

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