Repercussões sobre o curta “Zona Portuária”

 

Voltando a ativa por aqui. Faz quase uma semana que voltei da casa do Seu Nelson, amanhã irei falar um pouco sobre esses dias. Por enquanto, faço uma prévia que começa assim:

 

Há poucos dias atrás escrevi um texto para uns amigos no facebook, enviando o último curta que produzi (Zona Portuária) com o Guilherme Tostes. O texto segue abaixo, e podem perceber meu interesse claro em saber o que o curta gerava nas pessoas.

 

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“Amigos,

não sei se todos sabem, mas estou filmando um doc sobre

 

as mudanças que estão ocorrendo na região da zona portuária (meu ‘projeto 1’), enfocando o viés social. E nesse meio tempo, estive hospedado na casa de um dos personagens do meu filme, que mora no Morro do Pinto. Numa das noites, no alto do seu terr

 

aço, eu e meu amigo Guilherme (que também está na equipe do filme) resolvemos fazer esse curta aí.

Ele é simples, bem representativo muito para nós, especialmente o que temos vivenciado e a nossa opinião a cerca das mudanças do lugar.

Estou enviando a todos, mas na verdade deveria ma

ndar pra cada um separado. O negócio é que eu sou preguiçoso mesmo. Queria saber a opinião de vocês.

Basicamente só posso dizer que fiquei refletindo ao longo do dia, que seria legal uma instalação disso, em loop, quem sabe. Enfim, já que não consegui recursos para tal até aqui… peço para que vocês vejam o vídeo de preferência em um lugar escuro e com com phones de ouvido (só tomem cuidado com o barulho, embora o vídeo vale mais a pena se for escutado bem alto) . Depois me digam a sensação e o que acharam!”

senha: porto

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Dito isso, posso dizer que o feedback foi excelente. Uma pá de amigos escreveram palavras muito válidas. Alguns eu irei copiar para cá, afinal, merecem ser compartilhados. Ah sim, e no próximo post eu falo minhas intenções sobre o curta.

 

“Gostei do “Zona Portuária”, cara!
Falar pra ver de luz apagada e com som alto e bom foi essencial.
Costumo ser implicante com “circulos de confusão”; muita gente tem usado de uma forma que não me agrada muito e às vezes me parece mero artifício estético e plástico para preencher alguma coisa que não tem nada, se é que me entende (sei que é um comentário pretensioso e corro o risco de estar sendo injusto com muitos filmes).

Mas não senti isso no seu. Aquele som cheio e grave no início, sobre aquele desfoque realmente me pegou. E no final, quando entra o outro som (não sei se era o som ambiente da hora que vocês tavam ali) e o lugar é “revelado”, me passou uma sensação boa, acho que um pouco contemplativa daquele lugar.
Posso estar viajando e ter passado longe da sua ideia, mas foi isso que senti.”

Rodrigo Ferdinand, fotografo do curta de projeto 2 “O Gosto de Sol” e meu curta ainda não concluído “Central”

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“cabei de ver e achei uma experiencia interessante e diferente .. vc fez um slowmontion no final cut ou foi lento no foco msm ? ..
Bom o som entrou muito bem e criou um estranhamento ..
imagino uma cena boa para introducao, caso vc queira aprofundar o tema ..
como experiencia sensorial tb eh interessante .. o looping eu ja nao sei ..
eh isso,
continua filmando que vai dar samba .. ou funk ..”

Diego Amorim, camarada do Cinerama (Cineclube da UFRJ)

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“achei massa o vídeo! bem simples. mas confesso que como estava esperando outra coisa, talvez algo, digamos menos “experimental” ele me pareceu um pouco como uma introdução pra alguma coisa. Mas vendo pela segunda vez já senti outras coisas, tipo o incômodo da espera até a imagem se revelar (senti vontade de adiantar o vídeo) e o som que lembra as obras da zona portuária causam um desconforto. Ao mesmo tempo essa coisa “lenta” faz a gente perceber esse negócio da imagem ir se revelando aos poucos que é bem legal também, porque que passa um pouco disso, da transformação da cidade, que tá sendo modificada e o funk do final me faz pensar também que esse é um lugar vivo, onde as coisas acontecem, onde tem gente viva. Gostei e achei muito bonito também. Acho que talvez fosse mais legal esticar esse tempo ao invés de ficar passando em loop, mas não sei se é isso que vc tá querendo. Enfim, minha humilde opinião.”

Clarissa Ri, camarada do Cinerama (2) e Norte Comum

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“acabei de ver!
adorei!! serio
sempre achei a imagem das luzes bonitas assim, e adorei o jeito como voce foi tirando-a da abstracao para algo concreto e a musica acompanhou esse ritmo saindo da abstracao tambem para algo relacionado com a imagem.
engracado pois tenho feito umas imagens relacionados a essa tematica. mas as minhas sao o oposto partem do concreto para a abstracao
alias percebo que a maioria dos trabalhos que faco partem da ideia de construcao ou descontrucao de uma imagem ou conceito.”

Manoela Medeiros, amigona artista

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“Assisti aqui o que me enviou. Vou colocar aqui algumas ideais imediatas que não são pra ser levadas em total consideração, princiipalmente por seu imediatismo. Mas, vamos lá. Eu achei interessante sua abordagem. Gostaria de ter visto o filme todo! rs

Mas, ao mesmo tempo, eu penso um pouco no enquadramento final, que é realizado em cima do morro. Eu penso, sobretudo, no tipo de imagem final que sua imagem inicial já nos pressupõe. Não é, necessariamente, uma imagem nova, no sentido, de algo que nos traga uma “reenquadro” do próprio Rio de Janeiro. Esta cidade está cansada, a verdade é essa. O Rio de Janeiro é uma velha que usa maquiagem pra se olhar no espelho e ainda se achar bonita. Mas a maquiagem craquela, não podemos esquecer. A questão da zona portuaria é um canto de cisne fatalístico que nos apresenta enquanto fantasmo há muitos anos. Olhar de lá de cima, para baixo, nos lembra do grande visual do Rio de Janeiro que por tantos anos apenas os “excluidos” entenderam e apreciaram, mostra, na reaidade, o quanto os poderosos foram ignorantes sobre a ideia de Cidade Maravilhosa, do que realmente o Rio de Janeiro significa. A sua portenta geografia só foi de fato usufruida pelos pobres: são eles que estão nos morros, são eles que entenderam o turismo, os morros, o horizonte. Os podereosos, os ricos, nunca entenderam. Entenderam agora, e, como sempre, compram e expulsam. Portanto, por um lado, acho legal o que fez. É importante dar esta dimensão: de que, no morro da Providência e outros, se tinha uma visão do Rio de Janeiro que não se tinha em outros lugares e que, e isto é interessantíssimo, só os pobres e os excluídos tinham essa noção e dimensão. Por outro, e isto é uma questão que levei pra alguns amigos de ocupação, atualmente, acho importante também buscar trazer novas e outras questões. E, para isso, o trabalho vai ser mais complicado. É importante mostrar que estas pessoas vão ser excluídas novamente do rumo ao progresso brasileiro? Claro. E deve. E muito. É muito importante demonstrar que o rumo do Brasil ao primeiro mundo (que ele já conquistou) é um rumo para lá de autoritário e filho da puta. Na verdade, o Brasil está muito próximo da China. O Brasil passa por cima de tudo e de todos. O nome Brasil é um horror para muitas famílias, pois, em nome do Brasil, milhões de brasileiros perdem casas, perdem rumos, famílias e, principalmente, vínculos. E, talvez, eu ache que este seja o rumo que o filme deva tomar. É de suma importância demonstrar estes vinculos, estes afetos, é de suma importância mostrar tudo aquilo que vai REALMENTE se perder. É mostrar que o “progresso” brasileiro tem sim um preço. O preço de quem construiu sua casa, quem tentou criar uma vida e um cotidiano próprios. Aquilo que se tornou, atualmente, mercadoria. Se o “Porto Maravilha” é alguma coisa, é uma marca. A região portuária se tornou um produto, uma mercadoria. Não o era cinco anos atrás, é agora. É um aviso. É um aviso a todos. Se o que se criou, se o que se amou, não se afimar de alguma forma, tudo esta perdido. É preciso mostar os afetos, é preciso se mostrar a História. O capitalismo atual se fia da não-história. Como se tudo o que acontece com as ocupações, tudo o que acontece com as favelas, não tivesse passado ou tradição – que não tivesse que ser RESPEITADO. Como tudo, deve ser. Não deve ser mercantilizado, mas, se o for, todos devem obrigatoiriamente, receber por isso. Se é pra mercantilizar, vão ter que dar dinheiro para todos que moram nesta região, se não, é Porto Athur, é quebra quebra. Se o Rio de Janeiro quer ter um síndico, que ele saiba o trabalho do Síndico, que é ouvir reclamações e se preparar para um levante. É importante, e de suma importânica – nem tanto estética, às vezes até mais política – mostrar a História, mostras estas pessoas e o que elas criaram. Que isso, infelizmente, e por causa de dinheiro, está sendo enxurrado agua abaixo. O Rio de Janeiro está submerso e poucas pessoas sabem nadar.”

Thiago Brito, amigo do cinema e da vida

 

 

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