O vazio de James Benning

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http://youtu.be/exMVaswb5kY

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Relatório 6 – Linguagem – Thiago Ortman, diretor e aniversariante do dia

Porto – Pesquisa de Referências / Linguagem

de Thiago Ortman

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Introdução

Em um primeiro momento, uma série de referências  surgiram. Mas meu interesse maior é entender a cidade, por isso, comecei a analisar filmes que buscavam o mesmo norte. Na apresentação de pitching já havia decidido por algumas referências; boa parte delas se mantém – enquanto uma ou outra caiu. Somadas a essas, surgiram outras que muitas vezes relatam algum aspecto ligado a uma cena/plano – que pretendo filmar – ou a alguma sensação que pretendo transmitir; há também muitas referências surgindo no processo de filmagem.

 

Primeiras referências

“Céu sobre os Ombros”, “A Oeste dos Trilhos”, “Anotações em Novembro”; “Reconstrução da Ruína”… além do texto “Experiência e Pobreza” de Walter Benjamin. Essas estavam desde o primeiro momento entre minhas referências. Filmes bem diversificados em sua realização, porém, com intuito semelhante: analisar a cidade.

“Céu Sobre os Ombros” pode ser considerado, em termos formais, o filme mais inspirador. Filmar três pessoas distintas em seu cotidiano, buscar nos planos e na narrativa suas peculiaridades e consequentemente suas histórias. O Porto também acompanha os personagens, porém, a busca foca ainda mais o indivíduo em relação com aquele espaço (a Zona Portuária). E a proposição da ficção imposta no filme de Sergio Borges é mais sutil em Porto, afinal, o interesse está em revelar o indivíduo em sua natureza mais sincera, focando nas principais características de seu perfil (ler mais em “Filmando Seu Nelson”)

“A Oeste dos Trilhos” prepara do terreno para muito das minhas reflexões antes e durante o processo de filmagem. Além da sua maneira exuberante filmar do diretor (uma handcam ‘flutuando’ pelos espaços mortos e observando o que se passa ali. O filme revela uma cidade degradada, aonde as pessoas trabalham já sem condições alguma: um dia uma zona industrial, hoje uma cidade levada ao abandono total. Não acredito que a Zona Portuária está caminhando para um processo de degradação, mas assim como Wang Bing em seu filme sobre a China, acredito que a região perderá por completo sua identidade. Gostaria de ser capaz de usar a câmera como ele, entrando em todos os lugares e acompanhando a conversa das pessoas e seus sentimentos – mas esse processo demandaria um tempo muito maior do que o necessário para a conclusão do filme.

Quanto aos filmes de Projeto 1 que me influenciam, partem da amizade que tenho com os diretores, e graças a isso um diálogo direto sobre eles. Admiro os dois filmes, acho a busca em entender a cidade louvável. Por isso, apesar de não haver um diálogo através do formato proposto pelos filmes – ambos com uma linguagem mais poética. Os mesmos questionamentos sobre a cidade estão lá, compreendê-la.

 

 

Filmando Seu Nelson

A maior parte das filmagens com o Seu Nelson – um de nossos personagens – já foi concebido. Seu Nelson é um senhor que mora no Morro do Pinto, tem cerca de 70 anos e inúmeras histórias singulares. Sambista que compõe até hoje é a imagem daquilo que o Rio já foi e não conseguiu preservar.

Em meio a suas filmagens, uma série de referências ligadas ao cinema nacional e sua história surgiram. Em um primeiro momento Seu Nelson resolveu fazer um “panelão” de sopa de ervilha para todos. Aí surgiu a primeira, digamos, homenagem: enquanto Seu Nelson catava as ervilhas ruins em cima de sua mesa de plástico, nós o filmamos silenciosamente, lembrando em alguma instância a cena final de “Eles não usam Black-tie” de Leon Hirszman. E não foi o único plano do cineasta que buscamos. Ensaiamos algo que se assemelha ao plano na casa de Nelson Cavaquinho (quando a câmera passeia em busca de detalhes na mobília de sua casa).

Ainda na linha dos diretores do Cinema Novo, Seu Nelson enfrentou os mesmos problemas que muitos sambistas que nunca foram conhecidos no asfalto também enfrentaram, e manteve sua posição firme, sem perecer aos interesses da industria fonográfica. O paralelo entre Seu Nelson e Espírito, personagem de Grande Otelo no filme Rio Zona Norte é plenamente cabível. A inocência de um Rio que não volta.

A termo de curiosidade, filmamos em um bar no alto do Morro do Pinto onde foi rodada uma cena de Assalto ao Trem pagado.

 

Sobre as sensações

Ao longo da minha pesquisa, fui entendendo com mais consciencia como o Rio se modifica nas suas instâncias arquitetonicas e –como consequencia – sociais. As mudanças governamentais realizam plano que descaracterizam regiões históricas (desde o início do século XX), em prol de uma política aristocrática que na realidade jamais conveio com a realidade da cidade e seus reais interesses. Por isso, a chamada revitalização da Zona Portuária, nada mais é que mais uma das alterações no paisagem histórica do Rio, levando evidentemente a mudanças drásticas, e muitas vezes agressivas da população residente ali. Acompanhando o raciocínio, a Zona Portuária será descaracterizada assim como a Praça XI foi um dia: o berço do samba, local que reunia negros e judeus… hoje é o simbolismo maior do vazio no Rio de Janeiro.

Dito tudo isso, a canção “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo despontou como um referência-maior para o “Porto”. A música canta a morte do samba (como foi um dia), o fim de um monumento histórico. “Praça Onze” é um acontecimento, afinal, é gerada durante as modificações; é um grito de protesto que se esvai, mas a energia de seus versos continuam vivo no Rio de hoje, por isso, a associação é mais do que bem vinda e carbura minhas ideias para o filme. O paralelo entre Porto e Praça XI é evidente: a modificação, irá descaracterizar aquele espaço, alterando o fluxo da cidade e acabando com o modo de vida das famílias que moram há décadas naquele lugar.

 

Vazio

Lidar com o vazio é, sem dúvida, uma missão das mais complexas. Há três momentos do cinema que associo quando penso em filmar o vazio no “Porto”.

O primeiro deles é um trecho do filme “Juventude em Marcha” do diretor português Pedro Costa: ao filmar a personagem de Ventura (protagonista) entrando a primeira vez em seu novo apartamento… trata-se de um conjunto habitacional branco e sem personalidade, a realização do nada. Enquanto o corretor de imóveis fala, Ventura simplesmente se cala, sem condições de realizar absolutamente nada naquele espaço… limbo.

O diretor tailândes Apichatpong Weerasethakul costuma ser uma referência para todos filmes que dirijo. Mais uma vez, em “A Síndrome e um Século”, mais especificamente na cena em que duas estátuas são filmadas em travellings laterais, que as têm como ponto de referência, em meio a uma música drone (caracterizada pela repetição e sustentação do som, como algo ambient).

A cena das escavações de Pompeia no filme “Viagem a Itália” de Rossellini retratam o vazio no seu teor mais doloroso. O vazio das relações humanas, e tal sentimento pode ser transportada para um vazio dos espaços e um vazio sociológico, deturpador, que simplesmente extermina com a histórica e os indivíduos que lá estão enraizados.

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Relatório 5 – Campo – Manuela Weitzman

MANUELA WEITZMAN CABRAL

PESQUISA DE CAMPO

INTRODUÇÃO

Dividimos a pesquisa de campo por três pessoas, cada uma responsável pela busca de um personagem e tudo o que envolve este (local onde mora, pessoas que convive, lugares onde passa e frequenta e sua rotina).

PRIMEIRA TENTATIVA

No primeiro momento minha ideia era encontrar novamente a Dona Sonia (possível personagem já citada na apresentação de pitching). Ela é uma senhora, ex moradora e ex líder da ocupação do Quilombo dos Palmares, que o grupo conheceu em uma reunião do Galpão da Ação da Cidadania.

Conversamos com a Dona Sonia durante a reunião e ela nos chamou atenção por ser muito ativa nos processos de mudança da zona portuária e por estar aberta a nos contar suas opiniões. Pegamos o contato dela, mas depois desse dia não conseguimos mais entrar em contato, seu telefone se encontrava inexistente todo o tempo.

SEGUNDA TENTATIVA

Fui em busca de um novo personagem. Através de uma conhecida do Thiago consegui o contato da Luiza, moradora da ocupação Quilombo das Guerreiras (localizada no Centro da cidade, na Rua Francisco Bicalho). Ela se mostrou muito receptiva por telefone e marquei um encontro com ela na própria ocupação. Foi muito interessante, pois ela nos contou sua história em relação à ocupação e também falou muito a respeito do funcionamento e da origem deste conjunto.

SOBRE LUIZA

Luiza é uma jovem estudante de Pedagogia e ex-moradora do bairro da Tijuca. Através do seu interesse pela área de educação e por questões sociais, Luiza conheceu o grupo de moradores da ocupação do Quilombo das Guerreiras e começou a frequentar as reuniões que duraram nove meses até o dia da ocupação (que aconteceu em 2006). Ela começou a fazer um projeto educativo com as crianças, trabalhando a questão da identidade – tema bastante complexo para crianças que não possuem um lar. Luiza juntou seu envolvimento com as famílias, o projeto e a vontade de sair de casa e resolveu se mudar para a ocupação em setembro de 2011.

Foi incrível essa conversa com a Luiza, pois ela nos recebeu de forma muito acolhedora e ficamos impressionados com a sua história e força de vontade. Luiza adorou nosso projeto, inclusive nos deu algumas ideias em relação a filmagem, mas pelo fato da ocupação ser extremamente organizada e por tudo ser debatido entre os moradores, a proposta de filmá-los teria que passar por uma aprovação da Assembléia.

QUILOMBO DAS GUERREIRAS

Esse grupo de moradores é formado por cinquenta famílias, em sua maioria imigrantes e mulheres. Eles começaram a se organizar muitos anos antes de conquistarem este espaço, criaram um regimento interno que instituiu regras como a proibição do uso de drogas, da agressão física e obrigatoriedade de participação na Assembléia. Também criaram diversas comissões para tratar de assuntos específicos.

A primeira tentativa de ocupação foi em um prédio na Cinelândia, mas que não durou muitos dias, depois tentaram outro prédio no Rio Comprido, mas novamente foram expulsos. Na terceira tentativa se organizaram mais e conseguiram finalmente ocupar o prédio da Rua Francisco Bicalho, onde antes era a CIA Tocas-núcleo de engenharia e onde hoje vivem os moradores da ocupação do Quilombo das Guerreiras. A divisão do espaço foi feita de acordo com o tamanho das famílias, a idade do indivíduo e seu estado civil. As famílias possuem quartos com banheiro e os outros têm banheiros em comum.

Essa ocupação é extremamente organizada e já conseguiram mobilizar algumas instituições a seu favor, mas vivem em uma espécie de “anarquia”, auto-gestão, não há intermediários. Pela persistência do grupo, já conseguiram terreno e financiamento para o Projeto Quilombo da Gamboa, que propõe a construção de um conjunto habitacional na Gamboa, mas as obras ainda não foram iniciadas. Isto gera uma preocupação para os moradores, pois o prédio onde vivem está incluso na terceira fase de obras de revitalização do porto, previsto para depois da Copa do Mundo.

 

ASSEMBLÉIA

Fomos à assembléia para apresentar nosso projeto. As pessoas pareceram dispersas e o fato dela acontecer em um ambiente com muito barulho também não colaborou com a nossa apresentação. Saímos de lá com poucas esperanças de aprovação, porque tivemos pouco tempo para falar, a Luiza não estava presente e as poucas dúvidas que os moradores tiveram em relação ao projeto, mostrou que estavam confusos com a proposta.

Desde a reunião passei a entrar em contato com outra moradora, Nilde. Ela também foi bastante receptiva, mas após a reunião não me deu um retorno (conforme eu havia pedido) e também me pareceu pouco interessada. Luiza ficou afastada durante um tempo e quando finalmente consegui contactá-la pedi para que ela explicasse mais uma vez o projeto e me desse uma resposta. Apenas há dois dias recebi uma ligação de Luiza, que me deu uma resposta positiva.

Agora nos falta saber quem vai ser o nosso personagem, mas já temos algumas opções indicadas por Luiza. Pensamos em ser ela mesma, mas nos disse que achava melhor ser um morador mais antigo e também alguém que passou por maiores dificuldades. Durante a conversa com a Luiza, ela nos disse que seria interessante filmarmos todos os moradores como um personagem só, uma vez que todos tem o mesmo valor lá dentro e que vivem como uma comunidade. Acatamos esta sugestão, mas vamos escolher alguém que nos guie e faça uma conexão com o resto do grupo. Ou seja, a ideia de ter um personagem que “represente” aquele espaço continua viva, mas lá será focado mais nas relações desta pessoa com o resto do grupo.

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Relatório 4 – Campo – Patrícia Paes

Patrícia Paes

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Entrelaços
A opção para integrar o grupo que apresentou o projeto sobre a Zona Portuária foi feita com base nas experiências pessoais na localidade e na apreciação da forma usada pelo trio Ana Carolina Bolshaw, Manuela Weitzman e Thiago Ortmanna exposição da ideia. Desde o início, havia uma crença na possibilidade de boa contribuição para o esquema. Quando da aceitação, iniciou-se um processo de seleção dentre as opções de personagens que poderiam ser sugeridos. A maior aposta foi o “Seu” Nelson, antigo morador da área, mais especificamente o Morro Moreira Pinto, popularmente conhecido como Morro do Pinto.

Nascido no Tuiutí e frequentador da Mangueira, Nelson Ferreira se mudou para o Pinto ainda jovem e pôde acompanhar as mudanças de perto, ou melhor, do alto. Compositor de muitos sambas que cantam a própria vida e os ambientes que ajudam a constituir a encantadora personalidade, ele afirma ter se sentado a mesas de bar ao lado de Cartola. Viúvo há quase vinte anos, mantém uma grande quantidade de parentes por perto, inclusive, na vila ao lado da própria casa: filhos, netos, sobrinhos. Os vizinhos que passam por lá sentem o clima aconchegante e acolhedor proporcionado pelo popular Seu Nelson: a porta permanece aberta, quase sempre com ele sentado no limite entre a casa e a rua, talvez porque de fato não haja esse limite.

As idades dos filhos variam entre 15 e 48 anos, e um deles, Fábio, é o único a morar com o pai e foi a principal conexão entre o grupo e o personagem. Diferentemente do gosto do pai, embora por ele respeitado pela escolha, Fábio Ferreira compõe uma banda de rock, a SubSoma, com um melhor amigo comum a dois componentes da equipe, Nicholas e Patrícia. Foi pedido a este melhor amigo, portanto, o Raphael Santos, que entrasse em contato direto com o Seu Nelson, que já recebia a banda em casa semanalmente para os ensaios, que englobam os amigos Nicholas e Patrícia.

Muito simpático e hospitaleiro, o personagem logo se animou a conversar com a equipe. No clima de sempre, casa cheia, família e amigos, ele recebeu os integrantes num primeiro momento para uma conversa sobre o projeto, mas já gostou de cara e aceitou participar. Mais tarde, deflagrou-se uma conexão entre dois personagens, Nelson Ferreira e Thiago Rodrigues. Thiago conhece Fábio e Raphael devido à SubSoma, sempre de olho nas manifestações culturais locais. Por morarem na mesma comunidade, também conhece o Seu Nelson. Desta maneira, conforme as visitas ao local foram aumentando e no decorrer da filmagem, o ambiente foi se tornando ainda mais acolhedor. O núcleo do documentário, Seu Nelson e parentes, vizinhos, amigos, Thiago: todos estavam homogeneamente integrados, configurando uma enorme família.

Seu Nelson recebe a todos tipo um pai, ou melhor, ao mesmo tempo pai e mãe.Um aspecto íntimo inevitavelmente se desenvolveu como resultado desse trabalho, pela hospedagemna casa dele. Isto se deu pelo convívio com toda aquela gente, que nem todo dia é a mesma, embora o clima todo dia pareça o mesmo: hospitalidade, descontração, cheirinho de comidinha caseira… Seu Nelson cozinhando, contando piadas, histórias antigas e cantando samba.Ele agradecia a proximidade com a juventude gerada pela filmagem, mesmo sempre rodeado de pessoas de todas as idades; demonstrava felicidade por conhecer outras pessoas. Esta atmosfera proporcionou imagens próximas, do interior do personagem, que se sentiu muito confortável com os componentes e com a câmera.

Ele não era o único. Todo o grupo se declarou muito satisfeito com a relação. A riquíssima personalidade desse sambista agregou informações úteis e visões de quem tem a experiência de uma vida que “costura” um pedaço da História. Seu Nelson viu, vê e vive a Zona Portuária e as mudanças que nela ocorrem, mesmo que signifiquem nenhuma ou pouca mudança ou, ainda, algo não percebido como positivo. O fato é que ele próprio modificou,ao menos um pouquinho, cada membro da equipe, que pretende levar a amizade surgida nesse trabalho para o resto da vida. Definitivamente, a opção pelo projeto sobre a Zona Portuária causa forte satisfação por confirmar essa troca. O que antes era a crença numa possibilidade se consumou na efetivação dos resultados satisfatórios.

TÉCNICA

No “aulão” ilustrativo sobre som, manuseio e operação da aparelhagem disponível na PUC-Rio, foram contatados dois atuais alunos do curso de Som de Cinema. Mas eles não precisaram ser inseridos no trabalho por duas razões. A primeira é que este grupo é composto por seis integrantes, portanto, o suficiente para a divisão em sub-equipes e delegação de tarefas. O outro motivo é que amigos do diretor do documentário emprestaram uma aparelhagem diferente da disponibilizada pela universidade, o que demandou o aprendizado dela, independentemente de a responsável pelo som do filme ter cumprido o curso como eletiva e comparecido ao “aulão”. De qualquer forma, outra aula do professor Fernando Ariani será por ela assistida e mais: foi solicitada uma rápida reunião com o professor após a aula, para esclarecimentos e conferência do trabalho já realizado.

Caso seja feita a opção por ambientação sonora diferenciada para cada personagem, imagina-se alguma música atrelada às imagens de Thiago Rodrigues, pois o que mais pautará as aparições dele é o próprio trabalho pelas lentes da câmera fotográfica e os traços da grafitagem. O que ele faz é como uma “trilha sonora visual”, ou seja, uma ilustração da própria visão sobre a área cujos história e cotidiano são o tema do filme. Como foi efetivado há pouco tempo, a ocupação Quilombo das Guerreiras é um personagem ainda sem rosto, mas ainda assim, pensa-se em muito ruído, relacionado não só à quantidade de pessoas pela qual é composta, mas também representando o ruído na comunicação na história da ocupação como um todo.

Essa característica de mudar de um lugar para outro, de ser organizada por tantas pessoas e exercer tão fortemente a democracia para as decisões. Tantas vozes tentando se comunicar entre si e buscando serem ouvidas por quem pode determinar a permanência como ato legal. Isso tudo remete a ruído; sons dispersos entrecortados com depoimentos isolados tanto cercados de silêncio quanto momentos de reunião, em que a fala da pessoa com a palavra pode ser camuflada num burburinho se ela levantar um ponto que cause discussão. Não necessariamente música, mas algum som experimental nos momentos gerais da ocupação. Já o Seu Nelson merece todo silêncio em torno dele, pois o que ele diz e canta é que são as coisas importantes.

Foi falado em se terminar – os créditos – com um samba na voz de Nelson Ferreira. Mas isto elevaria dois personagens a posições de destaque, pois Thiago será como um “guia” presente no filme, o que automaticamente encobriria a relevância das Guerreiras, portanto, esta opção foi descartada. Manter o Thiago como esse “guia” se relaciona ao trabalho dele, que é dar voz e buscar visibilidade positiva. Mesmo com a redundância, é necessário enfatizar novamente que nada disto ainda está definido e que dependerá do sentimento fornecido pelas imagens.

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Relatório 3 – Campo – Ana Bolshaw

PORTO – Pesquisa de Campo

De Ana Carolina Bolshaw

INTRODUÇÃO –

Nosso primeiro contato com a Zona Portuária foi anterior a aprovação do projeto no pitching. Naquela altura, o grupo inicial, eu, Thiago e Manuela, já havíamos feito duas visitas visando uma pesquisa para o projeto do curta documentário; a primeira na área da Praça XV, Morro da Conceição, alto do Mosteiro de São Bento e entornos da perimetral e na segunda focamos em andar pela Gamboa, Saúde e Santo Cristo.  Nesses primeiros momentos fomos nos familiarizando com a movimentação e com as obras sendo realizadas; nossas idas foram realizadas com um espaçamento de um mês aproximadamente e  foi surpreendente perceber a rapidez do andamento das obras. Na Avenida Venezuela, por exemplo,  o canteiro de obras ‘’andou’’ quase três quarteirões nesse curto intervalo de tempo, se torna visível a urgência da realização do curta-metragem. Mais do que a vontade de filmar as obras, pretendíamos registrar o processo de mudança, congelar e retratar esse espaço de tempo entre o que é e do que irá se tornar, com as imagens e com as pessoas, fazer do projeto um objeto de memória e reflexão daquele espaço e campo de estudo.

Nesse relato a ser avaliado academicamente, irei dar ênfase ao relacionamento estabelecido com o Thiago Rodrigues, fotógrafo. Criamos essa divisão no grupo, cada integrante seria responsável pela busca de um personagem e tudo o que envolva este e nosso relato seria baseado nisso. Dessa forma, mesmo estando presente em outros momentos de filmagem e me relacionando com outras pessoas que estarão no filme, irei desconsiderar esses relatos e fazer um registro formal que será baseado somente nas experiências com o Thiago.

CAMINHO PERCORRIDO ATÉ O THIAGO –

Antes mesmo do pitching, no dia 3 de Março, em nossa segunda visita ao Porto,  descobrimos o Galpão da Ação e Cidadania na Gamboa. Estávamos passando e percebemos um evento acontecendo no seu interior, era uma reunião, que viemos a descobrir, acontece mensalmente. Naquele dia especialmente, o tema era relacionado ao Dia da Mulher, debatiam violência domiciliar, direitos iguais, entre outros. Lá dentro conhecemos a Dona Sônia, uma das líderes da Ocupação de Chiquinha Gonzaga, que conversou conosco sobre a questão das remoções na área, pegamos seu contato e seguimos nosso caminho. Estávamos já satisfeitos e conversando sobre o que havíamos descoberto e conversado com a Dona Sônia quando paramos em uma birosca de esquina para comer um pastel. A via dessa esquina estava completamente aberta com um canteiro de obras e gradios laranjas,  enquanto meus companheiros pediam o lance no caixa fiquei na esquina tirando fotos da rua, dos operários e transeuntes. Nesse momento, fui abordada por um homem, que perguntou se eu trabalhava no Galpão do Ação e Cidadania, expliquei que éramos alunos da PUC e qual seria a funcionalidade daquelas imagens. O homem se apresentou como Maurício Hora, professor de fotografia do Galpão. Expliquei o projeto, ele se mostrou interessado e contou que estava montando com seus alunos uma exposição justamente sobre a Zona Portuária e as mudanças, falou que a inauguração havia sido adiada por falta de organização e problemas com o patrocínio, mas que eles esperavam que no mês seguinte já estivessem expondo. Maurício frisou a necessidade daquele registro por aqueles jovens que frequentam e passam por aquelas ruas todos os dias, o diálogo com ele me instigou e, desde aquele momento, vimos uma identificação daquele registro com o que pretendíamos explanar no nosso documentário.

Um mês depois, após ter o projeto aprovado pelo banca do pitching e novos membros em nossa equipe, voltei ao Galpão para falar com o Maurício, pois pensava que ele seria um bom personagem para o nosso filme ou abriria caminhos para conhecermos um outro possível personagem. Quando entrei no Galpão me deparei com a exposição dos alunos montada e fui completamente surpreendida pelo trabalho deles. Havia sido montados painéis de aproximadamente 5 metros nos dois lados do extenso corredor interno do Galpão e as fotos foram coladas com “lambe-lambe”. O porteiro me informou que o Maurício havia sido para almoçar, esperei um pouco, até que chegou um dos alunos, Douglas, ele foi comigo até o estúdio, a pequena sala onde o Maurício ficava com seus alunos e ficamos esperando lá. O estúdio tinha um equipamento de fotografia razoável, com câmeras, refletores e computadores. Perguntei se tinha fotos dele na exposição e ele contou que não tinha sido aluno do curso no ano anterior porque havia servido no exército, mas que tinha aprendido muito no tempo que frequentou as aulas e queria recomeçar o curso. Descobri que a exposição havia sido inaugurado na noite anterior e que os alunos e o Maurício haviam montado tudo sozinhos, de maneira que tinham trabalhado exaustivamente na última semana, passando noites sem dormir. Ele perguntou se eu havia visto as fotos de 15 metros do lado de fora do Galpão, achei que ele estava falando do “cartaz” da exposição também em lambe-lambe, mas somente depois fui descobrir um corredor inteiro de fotografias no exterior do prédio.

Chegaram mais dois alunos na sala de fotografia do Galpão, entre eles, o Thiago, que avisou que o Maurício não voltaria ao Galpão naquele dia porque precisava dormir após a inauguração da exposição. Conversei um pouco sobre o projeto com os rapazes sobre a exposição, sobre fotografia e também sobre o que se tratava o nosso projeto. Percebi que eles estavam tímidos mas ainda assim foram muito simpáticos, desde esse primeiro dia, a articulação e sua capacidade de reflexão do Thiago me chamou atenção.

Voltei um dia depois com alguns companheiros do grupo, Mauricio novamente não estava, Os alunos conversaram conosco e deram sugestões de lugares para conhecermos na zona portuária. Nesse dia, peguei o contato do Mauricio por telefone e combinei de encontra-lo no galpão na semana seguinte. Conversamos com a Ruth, coordenadora cultural do Galpão e ela nos deu total apoio para estar realizando o projeto em seu espaço e que o Maurício seria justamente o melhor contato que poderíamos querer. Enquanto estávamos lá, o Thiago Rodrigues estava fotografando a exposição.

– THIAGO, VOCÊ FOI PROMOVIDO

Quando finalmente nos reencontramos com o Mauricio, ele estava nos fundos do Galpão com o Thiago e Douglas repintando a moldura de uns dos painéis da exposição. Conversamos com ele, que nos contou a sua visão sobre a Zona Portuária. Morador do Santo Cristo, Maurício tem muito orgulho de seus alunos e realmente acredita no potencial deles como profissionais do mercado, não quer iniciar outro curso de fotografia e, sim, continuar instrumentalizando seus alunos. Ele fez a primeira relação comparando o abandono da Zona Portuária com a Praça XI, que pesquisaríamos mais a fundo em outro momento. Questionamos sobre a realização do nosso documentário e ele aprovou ao dizer que acha que qualquer retrato e registro ali é bem-vindo. Disse que o Thiago seria um “bom personagem” pois estava fotografando bem, a maior foto do exterior do Galpão era dele, e era bem esperto, com consciência social e que, com certeza, iria enriquecer nosso projeto. Thiago que estava conosco, riu da colocação do professor a seu respeito, mas se colocou completamente disponível para nos ajudar. Disse que não se sentia a vontade na frente das câmeras e achamos que isso seria interessante. Mas, posteriormente, a desenvoltura do Thiago nos surpreendeu, foi notável a intimidade que ele foi desenvolvendo com a ‘frente’ das lentes através do estabelecimento de relações conosco, seu conhecimento prévio da linguagem audiovisual e conversas sobre a parte técnica da realização do filme.

Marcamos no feriado de São Jorge para começar nossas filmagens, a ideia inicial era buscar planos da zona portuária, desde os mais abertos possíveis, vista da cidade, até detalhes da marcação nas portas das casas para remoção. O Thiago já estava mais envolvido em nosso processo e se dispôs a nos acompanhar e nos apresentar outros lugares e olhares na região. Fomos com ele ao Morro da Providência, que estava em festa no feriado. Lá há uma UPP, mas mesmo assim, sentimos que não seria possível subir sem a presença do Thiago e/ou em um dia normal. Fomos ao alto da Casa Amarela, centro cultural do Morro, que o Mauricio Hora administra e fizemos imagens das pessoas e da cidade.

Nos despedimos do Thiago pois ele tinha que trabalhar fotografando uma festa e seguimos para a Pedra do Sal. Lá, também havia uma festa pelo dia de São Jorge e muitos canteiros de obra em atividade ao redor. Fizemos algumas imagens da festa e dos detalhes característicos daquele espaço como imagens de apoio sobre o dia-a-dia e para possibilitar uma maior ambientalização no filme. Observamos esse momentos de lazer, onde todos as famílias se conhecem e socializam são características intimistas, que diferenciam aquele espaço do resto da cidade.

A próxima parada foi a praça de Gamboa, onde tentamos ainda capturar imagens com essas características, crianças jogando futebol na rua, botequins, cama elástica, famílias nos bancos da praça, etc.

Foi satisfatório esse primeiro momento, pois conseguimos imagens diversas da área, tanto do alto quanto inseridos naquele ambiente intimista e das obras que estão espalhadas no meio de tudo isso.

THIAGO, AGENTE

A partir de conversas com o Thiago, pensamos que seria interessante se ele pudesse desenvolver um papel mais ativo. Não queríamos que ele atuasse como um ator, mas sim que ele pudesse ser um personagem que questionasse o espaço portuário e levasse essa questão a outras pessoas que cruzassem sem caminho. Não deixa de ser a sua proposta quando registra e expõe suas fotografias e a nossa ao realizar o filme: levar essa questão adiante com o intuito de causar uma reflexão. Decidimos experimentar filmar com ele nos arredores do Galpão com uma lapela, assim poderíamos registrar as suas conversas, ainda não havia sido definido como essas imagens seriam feitas, uma vez que aproximar a câmera para filmar esse diálogo poderia causar uma retração da outra pessoa e não sabíamos se filmar o diálogo de longe seria satisfatório.

No dia seguinte ao feriado de São Jorge, encontramos com o Thiago no Galpão e filmamos a primeira diária de uma série que, até o presente momento, dia 11 de Maio, já acumula 4 dias de acompanhamento com ele pela área.

Nessas 4 diárias conseguimos bastante material dele fotografando e conversando com diversas pessoas, observamos uma desocupação em Gamboa e muitos canteiros de obras no Morro da Conceição e nos arredores do Galpão. Ele conversou com desde seus amigos do curso, idosos que perguntavam da filmagem até aqueles que participavam com a desocupação.

Em nosso plano de filmagem, pretendemos estar com ele ainda amanhã (12 de Maio), na terça, quinta e na sexta-feira (15, 17 e 18 de Maio) para concluir as filmagens e daí partir para o registro da Ocupação das Guerreiras durante um final de semana. Temos uma margem no ínicio de Junho para que, após a primeira decupagem, possam ser feitos planos que estejam faltando para a narrativa do curta.

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Relatório 2 – Conteúdo – Guilherme Tostes

Pesquisa de conteúdo 

Minha pesquisa de conteúdo consistiu em buscar na região portuária questões sociais, econômicas e politicas que essas mudanças podem proporcionar e como isso afetar diretamente a população local.

De uma maneira geral, primeiramente, fomos buscando pontos dos dois lados, um da prefeitura e do projeto Porto Maravilha, que é a mais explorada e citada nos veículos de grande imprensa, e o da população local e suas impressões. Constatamos que existe uma dicotomia entre essas duas visões, e que apesar da esperança que essa revitalização trouxe, as obras de uma maneira geral vem integrando pouco essa população as reformas. Pelo ao contrário, a população vem sofrendo com um processo de exclusão, seja através da especulação imobiliária que forca a população a ser realocada ou vender seus imóveis, ou seja pelas obras que visam tornar o local turístico, e apropriado para receber uma população de zona sul, sem de fato, informar e integrar a população local a esses eventos que ocorrem e o projetos.

Através de alguns estudos e conversas observamos que tem ocorrendo na cidade do Rio e principalmente na ZP um processo de mercantilização da cidade. Em que apenas zonas interessadamente mercadológicas vêm recebendo essas melhorias, para propiciar, uma maior expansão de possíveis localidades rentáveis, ou então, a falta de uma responsabilidade social e prol de licitações de empresas sem o atestado ganho para aquela sociedade.

Apesar de todo “boom” e melhorias inevitáveis para essa região queremos mostrar que também, à parte disso, existe um processo de exclusão da população mais pobre da região e a não integração do restante dessa gente a totalidade desse processo, além de que, essa foi uma região histórica de formação da cidade do Rio e que a muitos anos está tão abandonada que na verdade essas melhorias feitas, são direito e devem ter a participação de quem mora lá.

Referências:

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/a-bencao-samba

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/nao-deixe-o-samba-morrer

 

Canal aberto dos moradores da região portuária:

A zona portuária do Rio de Janeiro vem passando por intensas transformações urbanas decorrentes das intervenções do projeto Porto Maravilha. Neste contexto, desde janeiro de 2011 moradores da região tem se organizado para discutir as possibilidades de mobilização e resistência ao projeto. Aos moradores foram somando-se a outros atores como ONGs, universidades e mandatos parlamentares e formou-se assim o Fórum Comunitário do Porto (FCP).

http://forumcomunitariodoporto.wordpress.com/

http://comitepopulario.wordpress.com/2012/04/20/baixe-agora-dossie-megaeventos-e-violacoes-dos-direitos-humanos-no-rio-de-janeiro/

 

Curta-metragem que aborda a questão da cidade de exclusão:

Uma cidade que vive uma tensão cotidiana, um projeto de apagamento da memória coletiva e o afastamento sistemático dos pobres do mar. Distopia::021 é um video documentário sobre como o capitalismo transforma as cidades em produtos e expulsa as populações pobres das zonas centrais especuladas.

 

http://vimeo.com/39915322

 

Vídeo que eu fiz com o Marcelo Freixo que fala do modelo de cidade atual

 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Bwi0tpCRYqU

 

 

Site do porto maravilha.

http://www.portomaravilha.com.br/

 

Revista eletrônica de estudos urbanos e regionais.

Artigo de mestrado sobre a ZP

“O artigo busca discutir algumas das políticas sociais que estão sendo implementadas no

interior do perímetro do Projeto Porto Maravilha. Lançado em 2009, este grande projeto

urbano pretende transformar a antiga zona portuária da cidade do Rio de Janeiro,

criando um ambiente favorável ao capital imobiliário. Pretendemos desvelar algumas

das questões que estão sendo frequentemente ofuscadas por uma propaganda poderosa

que pretende construir uma ideia positiva sobre o projeto. Para tanto, dividimos o artigo

em três partes: na primeira delas apresentaremos a conjuntura política e as mudanças

na gestão urbana em torno do Projeto Porto Maravilha. Em seguida, discutiremos como

a questão habitacional é tratada nos sucessivos projetos idealizados para este espaço.

Por fim, analisamos os impasses atuais que os moradores de baixa renda enfrentam para conquistar o direito de permanecerem no local.”

http://www.emetropolis.net/download/edicoes/emetropolis_n08.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832005000100002&script=sci_arttext

Conversa pessoal com a Urbanista e Cientista Social e doutora em responsabilidade Social, Maria Alice Nunes Costa

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Relatório 1 – Pesquisa de conteúdo por Nicholas

A partir de agora, vamos adicionar aqui os relatórios desenvolvidos pelos membros da equipe. Eles pesquisaram os seguintes direcionamentos: conteúdo; campo; e linguagem.

Abaixo segue o primeiro relatório da pesquisa de conteúdo do Nicholas Andueza:

Introdução:

Uma proposta como a do projeto Porto Maravilha, que pretende fazer uma reforma radical na Zona Portuária do Rio de Janeiro, deve ser analisada com muito cuidado, tendo em vista a magnitude da iniciativa e de seus possíveis impactos. Não é a primeira vez que a prefeitura do Rio propõe uma reforma em larga escala, de modo que uma abordagem histórica do tema é absolutamente essencial para a formulação de pensamento crítico – necessário para capacitar melhor o grupo frente ao desafio do curta documentário sobre a Zona Portuária.

Embora a primeira vez em que o Rio de Janeiro se vê tomado por obras seja com a chegada da Família Real, em 1806, trata-se de um momento mais de construção do que de reforma urbana propriamente dita. Um período que pouco tem a ver com o atual por fatores econômicos, históricos, sociais e políticos. A análise proposta neste documento visa as reformas de Pereira Passos, suas influências e uma consideração teórica sobre o conceito de espetacularização do patrimônio cultural.

A essência francesa:

É preciso ter em mente que na época da tão notória Reforma Pereira Passos, o modelo que a elite brasileira tinha de civilização era a europeia. Em especial a francesa. Assim, para entender as inspirações conceituais, organizacionais e arquitetônicas das reformas urbanas no Rio de Janeiro, é preciso, antes, fazer uma viagem à Paris de 1860. Nessa época a “cidade das luzes” sofria a mais radical reforma urbana de sua história, promovida pelo Barão de Haussman entre 1852 e 1870. No capítulo A Vista de Notre Dame, do livro A Pintura da Vida Moderna – Paris na arte de Manet e seus seguidores, T. J. Clark descorre detalhadamente sobre todo esse período, chamado de haussmanização.
As motivações principais do barão eram: a) impedir rebeliões populares, faz-se necessário lembrar que a França trazia histórico recente de revoluções importantes (1789, 1830, 1848); b) modernizar a cidade, que tinha uma arquitetura tradicional e antiga; c) criar uma cidade imperial a ser exibida aos estrangeiros; d) gerar lucro, não só para capitalistas industriais e do comércio, como também para o próprio Haussman.

A palavra emblemática que percorre toda o esforço do barão é “progresso”. O conceito implicava desenvolvimento industrial, organização uniformizadora do crescimento do fluxo de mercadorias e pessoas, substituição do comércio local dos quartiers (bairros) pelo dos grands magasisn de nouveauté (grandes lojas de novidade) e valorização do centro da cidade para que fosse ocupado pelas elites. De fato, no fim da década de 1860, como descreve Clark, “Paris tinha o dobro de árvores do que na década anterior, em sua maioria transplantadas já adultas; tinha também policiais e patrulhas noturnas, pontos de ônibus com cobertura, água encanada e melhor acesso aos cemitérios.”

Tais melhorias na infra-estrutura não impediram a impopularidade da reforma. Entre as críticas, estavam: a) o modo dispendioso e desonesto em que Haussman atuava; b) o resultado arquitetônico das obras, com suas avenidas retilíneas e prédios uniformizados, era considerado regular, vazio e tedioso; c) a expulsão da classe trabalhadora do centro para o subúrbio; d) a divisão da cidade em duas: uma de luxo circundada por outra de miséria. Mesmo com as críticas e algumas greves que chegaram a paralisar as obras durante algum tempo, Haussman pôs em prática seu conceito de cidade moderna.

O porto e Pereira Passos

Embora o período de 1903 a 1906 seja apresentado com destaque às reformas controversas feitas pelo então prefeito carioca Pereira Passos, na verdade estas eram complementares ao foco real do Governo Federal: o porto. O presidente Rodrigues Alves, com a finalidade de favorecer as exportações de café e, por conseguinte, a elite cafeeira, pretendia aumentar a capacidade do porto do Rio de Janeiro. As reformas da cidade em si e sua infra-estrutura viriam da necessidade de aprimorar os fluxos de mercadorias e também de atrair imigrantes estrangeiros que iriam trabalhar nas lavouras de café – a economia passava por uma crise de mão-de-obra por causa da abolição da escravidão. A importância aqui era o produto nacional (o café), não a população.

Rodrigues Alves, tendo indicado Pereira Passos como prefeito para as reformas na cidade, designa Francisco Bicalho para modernizar o porto. Ambos entendiam “modernizar” como sendo copiar o estilo europeu, um esforço “quixotesco”, como coloca André Nunes de Azevedo em seu texto A reforma Pereira Passos: uma tentativa de integração urbana. Quixotesco, “pois tentava-se impor um padrão de civilidade urbana burguesa e europeia a uma cidade de tradição escravista e culturalmente heterogênea – marcada pela presença de uma miríade de migrantes e imigrantes.”

Essa imposição da civilidade, para além da abertura de grandes avenidas, expulsando os pobres de suas casas (como Haussman), consistia numa série de proibições em relação a práticas comuns na cidade: cuspir na rua, vadiagem canina, fazer fogueiras nas ruas, venda ambulante de loterias, soltar balões, trânsito de vacas leiteiras, andar descalço ou sem camisa. Ou seja, o esmagamento da cultura e da identidade locais não vinha apenas com a materialização de uma arquitetura em estilo francês sobre os escombros de casas, botecos e quiosques populares, vinha também na ordem dos costumes que tinham que seguir os padrões da elite.

Mesmo que tivesse um preço salgado, havia quem olhasse com bons olhos o que acontecia. O preço tinha que ser pago, era o preço do progresso. O governo fez, no fim das contas, a reforma do porto e a construção de avenidas e de estabelecimentos para o enriquecimento cultural da população (condição para os pobres viverem no centro), como teatros, teatros líricos, o aquário público, praças e jardins – todos, é claro, da cultura de elite. “O Rio civiliza-se”, como colocou o colunista Figueiredo Pimentel após a inauguração da Avenida Central, e passa a ser modelo para outras cidades no Brasil.

É certo que o resultado não foi bem assim. As reformas seguiram os preceitos da empreitada de Haussman, no entanto, ou talvez por isso mesmo, tinham embutidas em si uma artificialidade: aquilo não pertencia ao povo carioca ou brasileiro, mas aos europeus. A população não se identificou com aquele layout novo, ao contrário da elite. Agora havia um estado endividado e a falta de interesse nas praças recém inauguradas – como constata tristemente Pereira Passos em diário depois de seu mandato.

A praça onze, a “espetacularização” e o Porto Maravilha

Tatiana Caniçali Casado, em sua tese Cidade-Paisagem – novas perspectivas sobre a preservação da paisagem urbana no Brasil, escreve que a noção de espetacularização da urbe no Brasil ultrapassa o plano social e alcança o político, exemplo disso é o projeto Porto Maravilha (basta observar o nome do projeto). Numa interpretação puramente estética da paisagem urbana moderna, perdem-se detalhes e particularidades culturais que também formam a riqueza dessa mesma paisagem. Trata-se de um olhar baseado em estereótipos que deixa esvaziado o cenário urbano.

Como escreve o filósofo Jean-Marc Besse, citado por Tatiana: “não se trata (…) de negar o visível, mas de lhe atribuir (…) um outro estatuto, uma outra função: o visível revela algo. (…) O que quer dizer que ele não é unicamente uma representação.” Através do curta sobre a Zona Portuário do Rio de Janeiro, haverá a tentativa de revelar esse algo do visível, que escapa a mera consideração estética e formal da paisagem.

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